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Ansiedade de separação: uma experiência para maiores de 18

Ansiedade de separação: uma experiência para maiores de 18

Para muitas crianças, a separação de alguém importante pode ser profundamente angustiante. Estar longe dos pais, cuidadores ou de uma figura emocionalmente significativa pode ser vivido como uma ameaça real, acompanhada de medo intenso, ansiedade persistente associada a sintomas físicos (como náuseas e dores abdominais) e um sentimento de desamparo difícil de explicar a quem está de fora.

Durante muito tempo, a ansiedade de separação foi associada quase exclusivamente à infância. No entanto, a evidência científica tem demonstrado que a ansiedade de separação pode manifestar-se ou manter-se na idade adulta, sendo hoje reconhecida como uma perturbação de ansiedade com impacto significativo no bem-estar emocional e relacional, com predominância de sintomas cognitivos e emocionais.

Viver com ansiedade de separação em adulto significa que situações quotidianas (como uma saída de casa, uma viagem ou uma noite sozinho) podem desencadear uma resposta emocional intensa. Na idade adulta, os sintomas de ansiedade de separação manifestam-se sob a forma de ansiedade intensa e medo excessivo associados à separação do cônjuge/parceiro/a, dos filhos ou ao receio de que algo de negativo lhes aconteça (num nível comparável ao observado na separação dos pais na infância). Adultos com ansiedade de separação podem sentir-se muito ansiosos, pela necessidade de manter proximidade ou contacto íntimo com as suas figuras de vinculação. Apesar de reconhecerem a ansiedade como excessiva e limitadora, têm grande dificuldade na sua gestão e em impedir que esta se reflita no comportamento.

À semelhança do que acontece com crianças que recusam ir para a escola para permanecerem em casa, os adultos podem demonstrar resistência em ir trabalhar, podendo recorrer a outras estratégias para manter a proximidade, como chegar sistematicamente atrasados ao trabalho, faltar, permanecer em casa ou recusar deslocações para estudar ou trabalhar fora. Concomitantemente, podem ocorrer pesadelos com temas de separação, bem como evitarem dormir sozinhos. Em alguns casos, ataques de pânico podem surgir em situações de separação, real ou antecipada.

Esta inquietação raramente afeta apenas quem a sente. Companheiros, familiares e pessoas próximas são frequentemente envolvidos, direta ou indiretamente, na tentativa de aliviar este sofrimento. Podem surgir dinâmicas como a necessidade constante de contacto ou confirmação, dificuldade em tolerar a ausência ou a autonomia do outro, pedidos frequentes de tranquilização e comportamentos de evitamento de separações, como evitar viagens ou mudanças.

Embora muitos destes comportamentos tenham como objetivo reduzir a ansiedade, a longo prazo podem gerar conflitos nas relações, associados a sentimentos de exaustão e de controlo. Estes adultos podem também sentir vergonha, associada a pensamentos como “já devia lidar melhor com isto” ou à ideia de que este sofrimento não é legítimo. Por seu lado, as famílias podem sentir-se confusas, culpadas ou frustradas, por não compreenderem totalmente o que está a acontecer.

Dar nome a este sofrimento pode ser um passo importante para reduzir a autocrítica e criar espaço para a compreensão, tanto por parte da própria pessoa como de quem lhe é próximo. O contexto relacional pode, assim, ter um papel central não só na manutenção, mas também na redução da ansiedade de separação. A forma como o sofrimento é compreendido e respondido faz, de facto, a diferença.

Um dos maiores desafios para familiares e companheiros é encontrar o equilíbrio entre validar o sofrimento e não reforçar comportamentos que mantêm a ansiedade. Validar significa reconhecer a emoção e o impacto que a separação tem.

Famílias e pessoas significativas desempenham um papel essencial quando reconhecem que a ansiedade não é uma “exigência excessiva”, mas uma resposta emocional intensa. Evitar minimizar ou ridicularizar o medo (mesmo quando parece irracional!) e oferecer apoio emocional consistente, aliado a limites saudáveis, contribui para uma maior sensação de segurança interna e relacional.

Se ao ler este texto se reconhece em algumas destas vivências, ou se identifica este funcionamento em alguém próximo, saiba que não está sozinho/a. A ansiedade de separação em adultos é um sofrimento real, que pode ser compreendido e acompanhado de forma especializada. Na nossa clínica, dispomos de uma equipa de profissionais qualificados, disponível para ajudar.

Marina Oliveira
Marina Oliveira
Psicóloga Clínica e da Saúde Mestre em Psicologia Clínica: Intervenções Cognitivo-Comportamentais, pela Universidade de Coimbra. Formação especializada em reabilitação psicossocial em saúde mental Experiência em prática clínica em contexto institucional, com base no modelo de reabilitação psicossocial, experiência na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados em Saúde Mental